Estrada
Gosto de viajar. Herança do meu pai, talvez. Ele me influenciou a tomar gosto não apenas pelo destino, mas pela viagem em si. Pela rodagem; pelo caminho; pelo trecho; pela estrada.
Semana passada fiz uma viagem de carro. Num determinado momento, minha companheira, que já havia despertado minha sensibilidade com um “olha que linda a luz batendo naquelas ávores”, adormeceu. Tínhamos hora para chegar, mas me propus a aproveitar o durante.
Escolhi uma playlist que combinasse com o momento. Existem musicas que parecem que foram feitas para a estrada. Comecei a perceber que o Chico, o Milton, a Gal, o Belchior, o Almir Sater, e vários outros, cantam verdades. Às vezes cantam até sobre Deus, ainda que sem querer. Graça Comum. Prestei atenção nas letras e nos sentimentos que elas escondiam. Enquanto ia pelo caminho, cantei.
Às vezes eu era surpreendido pela doce voz dela, que despertava do sono e começava a cantar também. Enquanto íamos, cantamos.
Algumas canções me fizeram lembrar pessoas. Orei por elas, e divaguei em oração.
Quando a fome bateu, paramos. Um café quente e um pão na chapa com queijo canastra. Uma bela fatia de bolo de cenoura com chocolate. Conversa fiada. Presentes. Estrada.
Olhei pro lado e vi a beleza de um sono tranquilo. É que depois de me perguntar se eu estava desperto e descansado, ela entendeu que poderia adormecer sem medo. Velei por ela. Me apaixonei pela sua boniteza. Sorri sozinho, encarando-a de relance. Orei. Renovei, ali, meus votos.
Meu cabo USB está ruim, e vez ou outra, passando por alguma irregularidade da estrada, a música para. Silêncio.
Porém, a cada minuto, eu conferia os dados na tela. Quantos quilômetros mais? Quantas horas faltam? Qual a circunstância do trecho à frente? Qual a direção da próxima curva? A ilusão do controle e da previsibilidade, os dados da fácil acesso, as informações precisas e instantâneas, tudo isso alimenta a ansiedade e cauteriza a sensibilidade. Desliguei o GPS e ocultei o relógio do carro. Me entreguei à estrada.
Um caminhão lento, numa subida onde a ultrapassagem não era possível, se transformou numa oportunidade de apreciar a paisagem. Uma reta num vale profundo, que desce e então sobe suavemente, uma oportunidade para acelerar e experimentar a sensação de abrir a janela a 140 Km/h.
Tem uma cidade chamada “Inhame” em algum lugar entre São José da Barra e Belo Horizonte. Achei o nome engraçado. Ri sozinho.
Li muito. São tantas placas, tantas informações, tanta gente tentando vender alguma coisa. Tanta coisa interessante, que passa despercebida. Lembrei de quando estava aprendendo a ler, e lia em voz alta tudo o que se havia para ler nas estradas. Lembrei das longas viagens pra Guarapari no antigo Chevette do papai. Das idas à fazenda do Seu Luiz no Golf vermelho da mamãe. Das pescarias na Kombi branca ou na S10 vinho. Lembro do cheiro de cada carro: cheiro de álcool, cheiro de novo, cheiro de marcenaria e cheiro de queimado, respectivamente. Chorei lembrando do menino que fui e de tudo o que já deixei pra trás.
Não consigo descrever o prazer que senti naquela manhã. O sol esquentava do frio doído que sentimos quando, cedinho, pegamos a estrada. E o meu coração aquecia à medida que eu desfrutava a experiência do caminho. Uma mistura de anseio e saudade do dia em que tomaremos aquela estrada que só nos leva, e não nos traz. Que nos levará para finalmente conhecer, pela primeira vez, Aquele de onde viemos, e Onde todos os nossos desejos serão satisfeitos.
Foi a primeira vez que me entristeci ao ser informado pelas placas de sinalização que a viagem acabaria em menos de 100 quilômetros. Eu queria mais. Mais tempo. Mais ócio. Mais músicas. Mais silêncio. Mais companhia. Mais prazer. Mais estrada!
Quero aprender a viver como viajei.
